PAPA INICIA GIRO POR CUBA E EUA COM EXPECTATIVA SOBRE EMBARGO

Visita do Papa

papaCPUm dos principais colaboradores para a retomada das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos, o papa Francisco inicia neste sábado (19) uma viagem histórica aos dois países, durante a qual deverá abordar temas sensíveis à comunidade internacional, como a crise imigratória, o aquecimento global e o embargo norte-americano de meio século à ilha, além de discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU).

O líder da Igreja Católica desembarcará em Havana, onde se reunirá com o presidente Raúl Castro – quem já recebeu em audiência no Vaticano em maio – e com lideranças religiosas. Um encontro com o ex-mandatário Fidel Castro também pode entrar na agenda, de acordo com fontes locais. Para o teólogo brasileiro Frei Betto, que em abril se encontrou com Fidel em Cuba, esta viagem “é a crônica de um legado antecipado”.

“Francisco receberá, de cubanos e norte-americanos, a gratidão por ter promovido o reatamento das relações diplomáticas entre os dois países”, disse o frade em entrevista exclusiva à ANSA, ressaltando que, com sua intermediação, o Papa “foi literalmente um Pontífice, que significa aquele que constrói pontes”.

No entanto, para a professora de Relações Internacionais da USP e Unifesp e doutora em Integração da América Latina, Regiane NitschBressan, os apelos de Francisco pelo fim do embargo serão mais simbólicos que efetivos. “O fim do embargo deve acontecer, mas a gente não sabe quando.

Não será pela visita do Papa. Acontecerá em um futuro”, comentou a especialista, pontuando que Cuba já está adotando medidas internas para a reabertura econômica, à espera apenas do aval do Congresso dos EUA.

Terceiro Papa a visitar a ilha (depois de João Paulo II e Bento XVI), Francisco encontrará uma Cuba de 11 milhões de habitantes que passa gradativamente por uma abertura política e econômica. Após ter sua atuação na ilha afetada devido à ideologia da Revolução Cubana, que era contrária a qualquer tipo de religião, a Igreja Católica possui atualmente 650 templos, dos quais 325 são paróquias.

“A visita do Papa reforça uma mudança doméstica cubana. Não pode ser vista apenas como uma visita para impulsionar o fim do embargo, mas sim, para reconquistar os católicos da ilha”, disse Bressan.

Já nos Estados Unidos, o Papa terá como desafio chamar a atenção dos políticos e da sociedade civil para os problemas relacionados ao modelo capitalista especulativo e explorador de recursos naturais, tema de sua mais recente encíclica, a “Laudato Si” (“Louvado Seja”), lançada em maio. Em Washington, Francisco será recebido pelo presidente norte-americano, Barack Obama, com quem abordará a crise imigratória, que atinge tanto a Europa, com refugiados do norte da África e do Oriente Médio, quanto os EUA, com cidadãos mexicanos cruzando a fronteira.

Depois, discursará no Congresso, onde pode encontrar resistência da ala republicana que se opõe a suas ideias. “Com certeza, o Papa influenciará para que o Congresso dos EUA suspenda o bloqueio a Cuba e devolva a base naval de Guantánamo”, apostou Frei Betto. Outro tema delicado que Francisco poderá abordar com os congressistas – onde o lobby israelense é um dos maiores do mundo – é a criação de um Estado palestino, já que o Vaticano passou a reconhecer o status do território em junho, causando um mal-estar com Israel. Em seguida, ele viajará a Nova York para discursar a dezenas de chefe de Estado e de Governo na Assembleia Geral das ONU. Para encerrar sua viagem, o líder da Igreja Católica irá até a Filadélfia para o “8º Encontro Mundial das Famílias”, em 27 de setembro, um dia antes de retornar ao Vaticano. (ANSA)