UM ANO APÓS A TRAGÉDIA, 10 VIÚVAS DE VÍTIMAS DO ACIDENTE DA CHAPECOENSE TRANSFORMAM A EMOÇÃO EM PALAVRAS

Bárbara, Suzi, Val, Aline, Girlene, Vanessa, Grazi, Graciella, Sirli e Letícia. Dez mulheres. Dez histórias por trás do maior acidente aéreo da história do esporte. Dez mães que se viram obrigadas pelo destino a mudar a rota da própria vida. Dez viúvas que são também chefes de famílias e, de coração aberto, transformam em palavras uma tempestade de emoções. Um ano depois, elas seguem em frente, mais fortes.

“Minha vida mudou da água para o vinho. A primeira coisa que eu pensei foi na Nina, em não mudar a rotina dela e tentar recomeçar em Chapecó. Já estávamos aqui havia dois anos. Fiz a escolha certa. Ela gosta muito da cidade, tem muitos amigos e lembra do pai em tudo, mas de uma forma positiva. Ela não sofre. Aos poucos, foi sabendo tudo que aconteceu e hoje fala naturalmente. Esses dias, disse: “Mãe, enterramos o pai e os passarinhos levaram para o céu”. Ela é a força para eu poder continuar. Foi bom para encerrar um ciclo e voltar para Porto Alegre. Faria tudo de novo. A Nina tinha que ficar bem, entender tudo e guardar que Chapecó foi o melhor lugar que vivemos. Estamos prontas para recomeçar.

A dor foi se transformando em saudade. O amor vai continuar para sempre. Não sei ainda o que quero fazer, não tenho expectativas, vivo um dia de cada vez. O psicológico fica muito abalado, tive problemas de pressão. Financeiramente, nossa vida era tranquila e pude continuar. Sem exageros, mas tudo que a Nina tinha, continuou tendo. Ajudei a família do Thiego, comprei casa para mãe, ajudei os irmãos, para que começassem a partir deles. Não consigo ajudar como antes. Cumpri minha missão e nunca vamos perder contato.

Não guardo ódio ou rancor. Não consigo. Nem da Chapecoense, nem da LaMia… Não tenho desavenças. Estou em paz. Vamos entrar contra a LaMia pelo escritório americano. Contra a Chape, não entrei ainda, mas toda família que sofre acidente de trabalho tem seu direito. O clube sabe disso. Não vou a psicólogo, nem psiquiatra. Claro que tudo me abalou muito, mas tive a cabeça no lugar para seguir em Chapecó. Agora, é o recomeço. Se Deus quiser, vou conseguir”.

Como está a Bárbara hoje? Tentando recomeçar, me situar em um contexto trágico. Minha vida é outra. Se pensar na tragédia, parece que foi ontem. Fecho os olhos e passa um filme. Se pensar na saudade, é uma eternidade. A ausência do meu grande amor, pai, ser humano… É devastador. Faço terapia intensiva, meu filho também. Precisamos desse suporte e não sei até quando. Não acredito que a dor passe. Estou aprendendo a conviver com ela. A cada despertar e adormecer, a lembrança está ali. Não tenho perspectiva de futuro ainda. Não consigo visualizar. A vida ainda está sem sentido, sigo um tanto perdida. Me sinto em uma montanha-russa emocional. A proporção da dor é a do amor. O vazio de uma saudade cheia de amor, valores, sonhos, planos…

Sou enfermeira, mas não me sinto preparada a retornar. A esposa de jogador abdica da vida, dos planos, para viver os sonhos do marido. Ele ter saído de cena me deixa desamparada. Quem sou eu agora? Foram sete anos juntos. Sou mãe e preciso cuidar do meu filho. Preciso estar ali, suprindo o que puder, fazer o máximo. Separei esse momento para isso. As pendências judiciais, em algum momento, vão se encerrar. Essa é uma parte prática. São coisas distintas. O elo que tinha com a Chapecoense não vai existir nunca mais. A Chapecoense na minha vida existia por causa do meu marido. Se ele não existe mais… A relação agora é pelos direitos. Ponto.

Atrás do atleta Ananias, existia um ser humano exemplar, pai maravilhoso, marido, muito bom caráter. Um menino que saiu de casa em busca de um sonho, alcançou, conquistou respeito, admiração. Atrás da tragédia, há pessoas, famílias, que estão apenas em busca de dignidade para viver e recomeçar. Amém! Vivam o simples. Sejam felizes! A vida nos prega muitas surpresas.

V

Ainda dói muito acreditar que acabou. Penso em Gil de uma forma tão especial e mágica… Se eu errar hoje, erro 100%. Falta quem perguntar: “O que você acha?”. Perdi um pouco a confiança, mas busco uma garra. Não é fácil. A imagem mais forte que tenho é dele segurando minhas filhas, uma de cada lado, de tão família. Um pai que não media esforços para brincar, arrancar sorrisos, ser presente. Tivemos tanto! É difícil entender que esse amor tão forte não existe mais. Me recuso e levo meus pensamentos ao passado.

As pessoas me veem sorrindo, dizem “que bom”. Geralmente, é nos dias que meu coração está mais despedaçado. Desejo muito conseguir sorrir com os lábios e o coração. Neste ano, só sorri com os lábios. O coração sangra. De alguma forma, quis blindar para que minhas filhas não sentissem dor. Elas perguntam: “Por quê?”. E dói não ter a resposta. Eu não sei o porquê. Me vejo como uma leoa que luta para defender e resgatar um pouco do que tínhamos.

As memórias daquele dia horrível são fortes. Parece que foi ontem, mas, pela saudade, parece tanto tempo. Ele não volta mais. A morte não cabia. Falam: “E se Neto contasse o sonho?”. Eles estavam felizes demais para que a morte chegasse. Me alegra é saber que vivemos o melhor possível. É um cenário que teremos que aprender a viver. Sempre lembraremos do paizão, jogador esforçado, mas também do pai que morreu no acidente aéreo. Por mais que tentemos mascarar feridas.

Gil amava tanto jogar, estar ali, que merecia ser retribuído de uma forma diferente. Ele falava que o antigo voo com essa empresa tinha sido difícil. Poxa, estavam conquistando algo tão grande. Mereciam algo melhor. Isso que cobro. Por esse “melhor”, não tenho mais o paizão, o marido carinhoso e protetor. Quero apenas justiça.

G

Tudo foi um pesadelo. Não queria acreditar, mas tive que enfrentar. Precisava ser forte pelos meus filhos. Até aqui, minha vida se resume a cuidar deles. Suprir o que o Bruno fazia, não vou conseguir nunca, mas tenho que cuidar das feridas abertas. O coração ainda dói. Somos nós três e tenho que tomar frente de tudo para que o que sonhávamos para eles se realize.

Vivo uma mistura de sentimentos. Tem dia que estou bem, tento aceitar que foi a vontade de Deus. Tem dias que não quero nem levantar da cama. Só choro, choro e brigo com Deus: “Por que isso tudo?”. Trava a cabeça. Parece que ele está viajando e vai voltar. O coração chega a arder de saudade. A vontade de ligar e não poder, querer contar certas coisas, ter o estalo de que nunca mais vai existir. A raiva ficou mais no começo. Hoje, tenho que me acostumar com a dor. As pessoas falam: “Tudo passa”. Mas tenho dentro de mim que não vai passar. A dor sempre vai estar ali.

Para o meu pequenininho, contei que o pai está no céu. Se perguntarem, ele responde que o papai está jogando bola com Jesus. A mais velha se privou muito, não demonstra o que está sentido. Vez ou outra fala que o pai “é” assim. Digo que ele não está mais aqui, mas ela responde que tudo é a mesma coisa. Ainda não consigo decifrar para ajudá-la. Sei que não demonstra fraqueza por mim, para me ajudar a ser forte.

Tento me adequar a vida que me foi imposta. Não passo necessidade, aperto, mas vou buscar tudo que for de direito e de melhor para meus filhos. Muitas pessoas veem de fora e não têm conhecimento do que estamos vivendo. Sou o pilar da minha casa. Vou atrás do que acho certo. Sinto carinho da torcida e da cidade, sim. Mas acho que a Chapecoense poderia valorizar mais a todos. Fonte G1.